Friday, March 16, 2007

Anjo

Acredita em anjo?
Pois é, sou o seu
Soube que anda triste
Que sente falta de alguém
Que não quer amar ninguém
Por isso estou aqui
Vim cuidar de você
Te proteger, te fazer sorrir
Te entender, te ouvir
E quando tiver cansada
Cantar pra você dormir
Te colocar sobre as minhas asas
Te apresentar as estrelas do meu céu
Passar em Saturno e roubar o seu mais lindo anel
Vou secar qualquer lágrima
Que ousar cair
Vou desviar todo mal do seu pensamento
Vou estar contigo a todo momento
Sem que você me veja
Vou fazer tudo que você deseja
Mas, de repente você me beija
O coração dispara
E a consciência sente dor
E eu descubro que além de anjo
Eu posso ser seu amor.
É PRECISO ACREDITAR EM ANJOS ! Daniela Mercury e Saulo Fernandes - Anjo

Lágrimas na madrugada - *

Seus punhos estavam bem presos ao contrário das lágrimas que tentavam causar comoção.
Não podia falar, pois sua boca estava invadida por uma língua violenta, seu corpo colado a um muro bolorento por um corpo suado.
Seus braços sangravam ao ser arrastados no muro e tentou parar, não sentir, fechar os olhos e, com sorte, morrer.
Suas roupas estavam imprestáveis quando o flash lhe cegou e a polaroid saiu, uma, duas, três vezes. Ouvia a ameaça e o desgraçado sair entre gargalhadas murmurando um “Até mais”.
“Asco...” Foi o sentimento que lhe tomou quando seu corpo escorregou até o chão. Lágrimas na madrugada. Volta e meia um carro passava iluminando sua solidão. Vomitou.
Levantou-se tentando se embrulhar nos retalhos que suas roupas se transformaram. Andou vacilante, o sangue escorrendo, os pés feridos por tanto tentar repeli-lo. Abriu a porta com a chave reserva. Entrou sem fazer barulho, mas apesar do cansaço não dói dormir.
Passou o resto da madrugada de baixo do chuveiro esfregando o corpo, transformando a água incolor em avermelhado sangue conforme arrancava a crosta formada pelo sangue coagulado.
Então era isto. Recomporia-se para descer ao café e falar com os pais e a pequena irmã. Pela noite, lá estaria ele, na faculdade, sorrindo e fingindo que nada aconteceu, ele, namorado de sua melhor amiga. O maior canalha espancador e estuprador que existia.
Desceu para o café. Os risos deles lhe faziam querer chorar, sentou-se a mesa respondendo as perguntas com poucas palavras. Ao levantar-se, seu pai a tocou. Seu corpo se encolheu de medo. Mas era apenas seu pai, apenas seu pai. Sua mente atordoada não se via mais no espelho, apenas destruição de uma vida, e nem ao menos poderia denunciar. Não havia meios de vingança.
Passou no quarto de seus pais antes de ir para a faculdade. Expressão séria ao chegar no habitual grupo. Ele beijava a amiga que conhecia há anos, apertando o braço dela com força, mais ao ver que chegara, largou-a para poder desembainhar o sorriso mais amável cumprimentando-a com o beijo na face de sempre. Propositalmente apertara com força seu pulso esfolado.
“Driiiiiiiim!”.
O sinal tocara. Piadas e risos não compartilhados durante as aulas. Todos a se despedir sorrindo, menos ele.
- Venha, a carona, lembra? – Sorriu com toda a perversidade que ela vira. Entrou no carro, banco do passageiro antes dele chegar.
Saíram do campus sem se falar até que ele sorriu abrindo o zíper da calça.
- Vamos lá, vagabunda, mostre o que tem de melhor! – Mostre estas montanhas de prazer e goze como ontem! – Exclamou sorrindo com todos os dentes.
Abri minha blusa e num movimento rápido tirei a trinta e oito de meus seios presa pelo sutian.
- Veja meu verdadeiro gozo e prazer! – Atirei uma, duas vezes antes do carro desviar e capotar.

+++

Saiu do carro se arrastando. Os pés feridos e os braços sangrando por conta das escoriações.
Gargalhou ante as lágrimas da madrugada afastando-se, mas virou. Ainda estava vivo? Talvez, mas não por muito tempo.
Dei o último tiro no tanque de combustível causando a grande explosão. Cavei naquele pedaço de terra, quebrando unhas e sangrando mais. Enterrei-a ali, levantando-me tentando me embrulhar nos retalhos de roupa inutilizados a fim de voltar para casa.
Agora sim pararia de chorar.


Mary Suri Lil26.02.07