Friday, March 16, 2007

Lágrimas na madrugada - *

Seus punhos estavam bem presos ao contrário das lágrimas que tentavam causar comoção.
Não podia falar, pois sua boca estava invadida por uma língua violenta, seu corpo colado a um muro bolorento por um corpo suado.
Seus braços sangravam ao ser arrastados no muro e tentou parar, não sentir, fechar os olhos e, com sorte, morrer.
Suas roupas estavam imprestáveis quando o flash lhe cegou e a polaroid saiu, uma, duas, três vezes. Ouvia a ameaça e o desgraçado sair entre gargalhadas murmurando um “Até mais”.
“Asco...” Foi o sentimento que lhe tomou quando seu corpo escorregou até o chão. Lágrimas na madrugada. Volta e meia um carro passava iluminando sua solidão. Vomitou.
Levantou-se tentando se embrulhar nos retalhos que suas roupas se transformaram. Andou vacilante, o sangue escorrendo, os pés feridos por tanto tentar repeli-lo. Abriu a porta com a chave reserva. Entrou sem fazer barulho, mas apesar do cansaço não dói dormir.
Passou o resto da madrugada de baixo do chuveiro esfregando o corpo, transformando a água incolor em avermelhado sangue conforme arrancava a crosta formada pelo sangue coagulado.
Então era isto. Recomporia-se para descer ao café e falar com os pais e a pequena irmã. Pela noite, lá estaria ele, na faculdade, sorrindo e fingindo que nada aconteceu, ele, namorado de sua melhor amiga. O maior canalha espancador e estuprador que existia.
Desceu para o café. Os risos deles lhe faziam querer chorar, sentou-se a mesa respondendo as perguntas com poucas palavras. Ao levantar-se, seu pai a tocou. Seu corpo se encolheu de medo. Mas era apenas seu pai, apenas seu pai. Sua mente atordoada não se via mais no espelho, apenas destruição de uma vida, e nem ao menos poderia denunciar. Não havia meios de vingança.
Passou no quarto de seus pais antes de ir para a faculdade. Expressão séria ao chegar no habitual grupo. Ele beijava a amiga que conhecia há anos, apertando o braço dela com força, mais ao ver que chegara, largou-a para poder desembainhar o sorriso mais amável cumprimentando-a com o beijo na face de sempre. Propositalmente apertara com força seu pulso esfolado.
“Driiiiiiiim!”.
O sinal tocara. Piadas e risos não compartilhados durante as aulas. Todos a se despedir sorrindo, menos ele.
- Venha, a carona, lembra? – Sorriu com toda a perversidade que ela vira. Entrou no carro, banco do passageiro antes dele chegar.
Saíram do campus sem se falar até que ele sorriu abrindo o zíper da calça.
- Vamos lá, vagabunda, mostre o que tem de melhor! – Mostre estas montanhas de prazer e goze como ontem! – Exclamou sorrindo com todos os dentes.
Abri minha blusa e num movimento rápido tirei a trinta e oito de meus seios presa pelo sutian.
- Veja meu verdadeiro gozo e prazer! – Atirei uma, duas vezes antes do carro desviar e capotar.

+++

Saiu do carro se arrastando. Os pés feridos e os braços sangrando por conta das escoriações.
Gargalhou ante as lágrimas da madrugada afastando-se, mas virou. Ainda estava vivo? Talvez, mas não por muito tempo.
Dei o último tiro no tanque de combustível causando a grande explosão. Cavei naquele pedaço de terra, quebrando unhas e sangrando mais. Enterrei-a ali, levantando-me tentando me embrulhar nos retalhos de roupa inutilizados a fim de voltar para casa.
Agora sim pararia de chorar.


Mary Suri Lil26.02.07

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