Tuesday, November 27, 2007

Invictus

Da noite que me cobre,
Negra como um poço de alto abaixo,
Agradeço quaisquer Deuses que existam
Pela minha alma inconquistável.

Na garra cruel da circunstância
Eu não recuei nem gritei.
Sob os golpes do acaso
Minha cabeça está sangrenta, mas erecta.

Além deste lugar de fúria e lágrimas
Só o eminente horror matizado,
E contudo a ameaça dos anos
Encontra e encontrar-me-á, sem temor.

Não importa a estreiteza do portão, ¹
Quão cheio de castigos o caminho, ²
Sou o dono do meu destino:
Sou o capitão da minha alma. ³


( William Ernest Henley - Invictus)

Saturday, May 26, 2007

Me...

Há demônios de várias faces,
Anjos de muitos nomes,
Criaturas de muitos poderes e
Santos de muitos louvores.
Como posso eu, agora, definir-me para tão ardua platéia?
Defina-me você.
Se bem me conhece sabe o quão angelical pode ser o
demônio que reside em mim,
Entre vermes sobre a epiderme é que exprime
A verdadeira variante de apenas mais um ser,
Apenas mais um de meus muitos 'eus' que contempla na
ausencia o fim.


Mary Suri Lil

Friday, March 16, 2007

Anjo

Acredita em anjo?
Pois é, sou o seu
Soube que anda triste
Que sente falta de alguém
Que não quer amar ninguém
Por isso estou aqui
Vim cuidar de você
Te proteger, te fazer sorrir
Te entender, te ouvir
E quando tiver cansada
Cantar pra você dormir
Te colocar sobre as minhas asas
Te apresentar as estrelas do meu céu
Passar em Saturno e roubar o seu mais lindo anel
Vou secar qualquer lágrima
Que ousar cair
Vou desviar todo mal do seu pensamento
Vou estar contigo a todo momento
Sem que você me veja
Vou fazer tudo que você deseja
Mas, de repente você me beija
O coração dispara
E a consciência sente dor
E eu descubro que além de anjo
Eu posso ser seu amor.
É PRECISO ACREDITAR EM ANJOS ! Daniela Mercury e Saulo Fernandes - Anjo

Lágrimas na madrugada - *

Seus punhos estavam bem presos ao contrário das lágrimas que tentavam causar comoção.
Não podia falar, pois sua boca estava invadida por uma língua violenta, seu corpo colado a um muro bolorento por um corpo suado.
Seus braços sangravam ao ser arrastados no muro e tentou parar, não sentir, fechar os olhos e, com sorte, morrer.
Suas roupas estavam imprestáveis quando o flash lhe cegou e a polaroid saiu, uma, duas, três vezes. Ouvia a ameaça e o desgraçado sair entre gargalhadas murmurando um “Até mais”.
“Asco...” Foi o sentimento que lhe tomou quando seu corpo escorregou até o chão. Lágrimas na madrugada. Volta e meia um carro passava iluminando sua solidão. Vomitou.
Levantou-se tentando se embrulhar nos retalhos que suas roupas se transformaram. Andou vacilante, o sangue escorrendo, os pés feridos por tanto tentar repeli-lo. Abriu a porta com a chave reserva. Entrou sem fazer barulho, mas apesar do cansaço não dói dormir.
Passou o resto da madrugada de baixo do chuveiro esfregando o corpo, transformando a água incolor em avermelhado sangue conforme arrancava a crosta formada pelo sangue coagulado.
Então era isto. Recomporia-se para descer ao café e falar com os pais e a pequena irmã. Pela noite, lá estaria ele, na faculdade, sorrindo e fingindo que nada aconteceu, ele, namorado de sua melhor amiga. O maior canalha espancador e estuprador que existia.
Desceu para o café. Os risos deles lhe faziam querer chorar, sentou-se a mesa respondendo as perguntas com poucas palavras. Ao levantar-se, seu pai a tocou. Seu corpo se encolheu de medo. Mas era apenas seu pai, apenas seu pai. Sua mente atordoada não se via mais no espelho, apenas destruição de uma vida, e nem ao menos poderia denunciar. Não havia meios de vingança.
Passou no quarto de seus pais antes de ir para a faculdade. Expressão séria ao chegar no habitual grupo. Ele beijava a amiga que conhecia há anos, apertando o braço dela com força, mais ao ver que chegara, largou-a para poder desembainhar o sorriso mais amável cumprimentando-a com o beijo na face de sempre. Propositalmente apertara com força seu pulso esfolado.
“Driiiiiiiim!”.
O sinal tocara. Piadas e risos não compartilhados durante as aulas. Todos a se despedir sorrindo, menos ele.
- Venha, a carona, lembra? – Sorriu com toda a perversidade que ela vira. Entrou no carro, banco do passageiro antes dele chegar.
Saíram do campus sem se falar até que ele sorriu abrindo o zíper da calça.
- Vamos lá, vagabunda, mostre o que tem de melhor! – Mostre estas montanhas de prazer e goze como ontem! – Exclamou sorrindo com todos os dentes.
Abri minha blusa e num movimento rápido tirei a trinta e oito de meus seios presa pelo sutian.
- Veja meu verdadeiro gozo e prazer! – Atirei uma, duas vezes antes do carro desviar e capotar.

+++

Saiu do carro se arrastando. Os pés feridos e os braços sangrando por conta das escoriações.
Gargalhou ante as lágrimas da madrugada afastando-se, mas virou. Ainda estava vivo? Talvez, mas não por muito tempo.
Dei o último tiro no tanque de combustível causando a grande explosão. Cavei naquele pedaço de terra, quebrando unhas e sangrando mais. Enterrei-a ali, levantando-me tentando me embrulhar nos retalhos de roupa inutilizados a fim de voltar para casa.
Agora sim pararia de chorar.


Mary Suri Lil26.02.07

Sunday, February 25, 2007

Continued...

Sua mente captava sinais de algo, captava-me cada vez mais próximo, e assim estava quando quinta-feira finalmente chegou.
Os fatos sucediam-se de maneira tal que a impaciência tomava conta de meu ser. Esperava por isto há muito tempo para ter de esperar mais.
Sexta pelo fim da tarde, acompanhei sua viajem para o litoral. Não poderia mentir dizendo que não preferia assim, pois preferia. O local seria ideal. Haveria centenas de pessoas que não pertenciam aquele lugar, de modo que seria impossível acharem o culpado pelo que certamente julgariam ser um crime.
A noite chegou, e com ela a escuridão que encobria todos os meus passos. Era como há anos atrás em Whitechapel, apenas as ruas movidas a orgias e dinheiro, mas sempre havia como encontrar um local deserto para praticar o amor pelo sangue e pelo ódio.
Consegui fazer com que ela se afastasse de seus genitores e das cachorras, chamando-a até mim, e ela, inconscientemente veio, perdendo-se das vistas deles na multidão.
Ela veio até onde estava, na orla da praia, amparado pelas sombras evitando que me visse antes da hora. Olhei todo seu corpo por minutos a fio enquanto ela caminhava e eu a seguia como um mero vulto na escuridão.
Segui-a por um bom tempo enquanto via seus pensamentos com exatidão. Oh Marie, tão diferente das outras que matei!
Já estava próximo de pagá-la agora, já sabia como e o que fazer, meu movimento em sua direção foi um, mas foi cortado pela luz que iluminou a areia e pelas vozes que se seguiram.
Ela me viu por frações de segundos antes que pudesse desaparecer sem deixar rastros.
A ira apossou-se de mim, mas não obstante, horas depois estava vendo-a novamente.
Desta vez ela estava deitada como em seu outro quarto. Não estava coberta e sim esparramada pela cama. Adentrei o quarto novamente e fitei-a. Mas agora a ânsia e raiva eram grandes de mais para que pudesse conte-la.
Coloquei a palma de minha mão em sua testa e a outra lancei em direção a porta, deixando-a impenetrável, e que nenhum som fosse ouvido. Ela abriu os olhos e peguei em seus cabelos puxando-os fazendo com me olhasse.
Com a outra mão, deslizei e redescobri seu corpo, retirando as poucas e finas peças que usava. Parei de puxar seus cabelos. Ela me olhou imóvel como deveria ficar. Caminhei até suas pernas e com um movimento rápido, abri-as, colocando-me entre elas.
Passei de leve dois dedos por suas coxas quentes antes de colocar meu peso pro cima do seu e com a outra mão tocar sua face, descendo pelo pescoço, colo e seios, onde realmente encontrou seu lugar, abrindo a palma e contendo-o ali, massageando-o devagar.
Mas meus olhos não saiam de seus olhos. Nos olhos de Marie.
Abaixei minha cabeça ainda olhando sua face, até chegar em seu umbigo onde passei minha língua de leve, descendo-a para seu ventre e chegando até sua intimidade.
Passei uma vez de leve, apenas para testa-la. Senti seu calafrio e sorri, pegando um de meus dedos e penetrando-a vagarosamente enquanto mordia de leve um de seus lábios e a outra mão apertava sua nádega.
Começava a sentir seu desejo enquanto apertava seu corpo todo, ela não falava nada, era tudo um sonho do qual ela não despertaria.
Nunca ninguém despertava.
Suguei de seu ventre voltando a subir minha face, passando-a para seus seios, dos quais suguei e voltando-se para sua boca que beijei com volúpia.
A única mulher que avia beijado em vida, e agora também em morte.
Segurei seus braços com minhas mãos e retirei a faca de um dos bolsos. A luva negra em minha mão apertava o cabo enquanto a lamina reluzia com a pouca luz existente no ambiente.
Podia sentir o cheiro que estava no ar naquele minuto.
Sentir a atmosfera e tudo prendendo a respiração para o momento.
Toquei sua face com a lâmina e deslizei-a provocando um pequeno corte. Olhava-a com a faca firme em meu punho. Minha mente já mandava o impulso para poder enfiar o metal em sua jugular quando parei acima dela, apenas fitando a expressão serena com a qual me olhava, como uma marionete, da qual, ao acordar, julgaria ter se tratado de um insano sonho.
Subi a faca e cortei um cacho de seu cabelo sem conseguir me conter.
Beijei-lhe a boca no que ela correspondeu obedientemente como elas costumavam fazer.
Apertei seus pulsos com maior intensidade apesar de saber que ela não se moveria. Começava a ficar irritado com aquela situação.
Aproximei meus lábios de seus seios, mas mordi-os com certa gana.
Levantei-me feito tufão antes de sair do quarto, deixando-a da forma como ficara.
Passei a noite na avenida principal. Não foi difícil achar o que queria, e desta, arranquei os pulmões, deixando seu corpo em uma praça no interior da cidade.
Postei-me no alto de uma elevação, ainda de vista para o mar, e fitei o oceano e suas ondulações suaves pro vários momentos.
Ao amanhecer, decidi que não ficaria assim.
Passei o dia como um estranho no meio dos que buscavam a diversão.
Minhas roupas escuras e compridas, o chapéu e as luvas. Alguns boatos já se ouvia sobre a morta, mas nada com o que devesse me preocupar, como nunca me preocupara.
Esperei a noite cair, como sempre, ela, minha companheira, ocultava-me de todos aqueles que pudessem reconhecer a minha imagem.
Ela estava pela rua. Sozinha.
Todo caos, todo barulho e movimento de todo e qualquer espaço-planeta aqui - agora se dissolveu naquele momento onde nossos olhos se cruzaram, um de cada lado da rua.
Seu pavor foi perceptível ao ver-me. Não, não for um sonho.
Ela andou em um ritmo mais apressado, afastando-se do centro das agitações, mas não lhe dei tempo para que chegasse até seu apartamento.
Empurrei-a para o muro e colei nossos corpos, segurando suas mãos acima de sua cabeça com uma das minhas e retirando a faca de meu bolso novamente.
- Desta vez, sem erros. – Sussurrei ao seu ouvido, passando a lâmina por seu corpo, sentindo suas respiração acelerar e seus seios começarem a ir de cima para baixo em um movimento continuo e assustado da mesma forma como batia seu coração.

***

Quarta feira de cinzas.
O primeiro dia da Quaresma no calendário cristão ocidental. As cinzas que os cristãos católicos Apostólico Romano recebem neste dia é um símbolo para a reflexão sobre o dever da conversão, da mudança de vida, recordando a passageira, transitória, efêmera fragilidade da vida humana, sujeita à morte.
Sujeita à morte.
Sim, não havia melhor dia para se ter tal visão.
Continuei caminhando pela orla da praia, apertando a mão no bolso com um olhar casual. Relanceei meu olhar para trás e voltei minha atenção para frente com um leve sorriso. Meu passo calmo era seguido pela água que alcançava a areia sem força, mas ainda sim com sua habitual beleza.
Se ela estava morta?
Não, nunca estaria morta, não minha Marie...Estava apenas esperando, como massa de pão, esperando até o momento certo para ai sim, poder sair de seu casulo e tê-la. Ao contrário do que imaginava, podia sim ser paciente.
Muito paciente.

Esboços – G&L 12, 14,15. 02.2007
To Know:

Jack o Estripador (Jack the Ripper) foi o pseudônimo dado a um serial killer não-identificado que agiu no miserável bairro de Whitechapel em Londres na segunda metade de 1888. O nome foi tirado de uma carta enviada por alguém que dizia ser o assassino, publicada nos jornais na época dos crimes. Embora diversas teorias tenham surgido desde então, a identidade de Jack o Estripador nunca pôde ser determinada.
As lendas envolvendo seus crimes tornaram-se um emaranhado complexo de verdadeiras pesquisas históricas, dando combustível a teorias conspiratórias e folclores duvidosos. A identidade não confirmada do assassino fez com que vários comentaristas, historiadores e leigos apontassem seus respectivos dedos na direção de vários suspeitos. Os jornais (cuja circulação crescia consideravelmente durante aquela época) deram ampla cobertura ao caso devido à natureza selvagem dos crimes e ao fracasso da polícia de efetuar a captura do criminoso, que tornou-se notório justamente por conseguir escapar impune.
Suas vítimas eram mulheres que ganhavam a vida como prostitutas. Os assassinatos típicos do Estripador eram cometidos em locais públicos e semi-desertos; a garganta da vítima era cortada, e depois o cadáver submetido a mutilações no abdômen ou em outras partes corporais. Muitos acreditam que as vítimas eram primeiro estranguladas, para não provocar barulhos. Devido à natureza dos ferimentos em algumas dessas supostas vítimas, muitas delas com os órgãos internos removidos, especula-se que o assassino tinha algum conhecimento médico ou cirúrgico, ou que até mesmo fosse um açougueiro, embora este ponto, assim como na maioria das suposições sobre o criminoso e os fatos que o circundaram, seja uma questão de disputa.
O número e os nomes das vítimas do Estripador são assunto de um amplo debate, mas a lista mais aceita é a chamada de "as cinco principais". Inclui as seguintes prostitutas (ou supostas prostitutas, no caso de Eddowe) que viviam no East End de Londres:
Mary Ann Nichols (nome de solteira: Mary Ann Walker; apelido: Polly), nascida em 26 de agosto de 1845 e morta em 31 de agosto de 1888, uma sexta-feira.
Annie Chapman (nome de solteira: Eliza Ann Smith; apelido: Dark Annie), nascida em setembro de 1841 e morta em 8 de setembro de 1888, um sábado.
Elizabeth Stride (nome de solteira: Elisabeth Gustafsdotter; apelido: Long Liz), nascida na Suécia em 27 de novembro de 1843 e morta em 30 de setembro de 1888, um domingo.
Catherine Eddowes (usava os nomes “Kate Conway” e “Mary Ann Kelly”, com os sobrenomes tirados de seus dois ex-maridos, Thomas Conway e John Kelly), nascida em 14 de abril de 1842 e morta em 30 de setembro de 1888.
Mary Jane Kelly (passou a usar o nome “Marie Jeanette Kelly” depois de uma viagem a Paris; apelido: Ginger), supostamente nascida na Irlanda em 1863 e morta em 9 de novembro de 1888, uma sexta-feira.

( Wikipédia)

Tuesday, February 20, 2007

The Ripper


Marie Jeanette Kelly.
A última da espécie que peguei. Todas tinham seus perfumes de quinta e seu batom borrado que dizia “Fuck me where you want to."
Até mesmo elas.
Ainda ouvia minha mãe dizer seu preço e bater-me quando dizia que contaria ao papai bêbado que igualmente nos espancava. Também me lembrava bem daquela que me fora roubada, e vendida como uma vagabunda antes de recusar de meu amor.
- How much? - Perguntei a Marie...Oh, pele macia, cabelos curtos e olhar suave. Doce Marie, olhos e nome iguais aos dela, iguais aos de minha Marie. Seria a única, e eu já sabia o que está me daria em recompensa.

Ela ainda sentia o efeito do último orgasmo, viva e muito bem amordaçada, quando coloquei a luva negra. Fechei o punho dedo a dedo e olhei-a friamente.
Seus punhos e tornozelos amarrados aos pés da cama deixavam-na vulnerável e aberta para mim. Sorri com escárnio e prazer antes de sacar a faca. Encostei o metal frio em seu ventre e fiz pressão ali. Seus olhos arregalados demonstraram medo, mas não gritou quando enfiei a arma mais adentro e comecei a cortar-lhe subindo, cortando a pele e a carne exatamente por sobre o esterno dela, abrindo seu corpo com precisão cirúrgica.
Ela então começou a produzir sons de dor que me faziam sentir vontade, sentir o gosto daquilo. Por melhor que aquilo fosse, passei a lâmina bem vagarosamente por sua jugular fazendo um pequeno corte que a mataria em muito breve.
Voltei a ocupar-me em abrir seu corpo, mas quando cheguei até o vinco de seus seios rosados ela já estava morta.
Com cuidado retirei todos seus órgãos embrulhando-os em pedaços de seu vestido a muito rasgado por mim.
Coloquei cada um deles em um ponto estratégico de seu quarto antes de cheira-la. Ainda tinha aquele odor de perfume vagabundo, prostituta barata. Quando sai levei o comigo apenas seu coração.

***

A polícia cada dia chegava antes na cena do que chamavam de crime. De onde ficava, sempre os via chegar e se surpreender com o ocorrido. É claro que muitos vândalos aproveitavam de minha ascensão e glória para cometerem seus crimes tão sem amor quanto os meus.
"Ah, e ainda há quem diga que isto não é amor!" Pensei pegando em seu coração em meu bolso. Amor por minha Marie e apenas a minha Marie que se fora, se fora ao ser vendida aquele homem por seus pais.
Caminhei calmamente pela noite até meu lar.
- Where were you?
- Nohere you had to know. -
- If you don´t tell me, I´ll call the police! Are you Jack the... - Aquela outra vagabunda intrometida há irmã, agora iria me dedurar para a polícia? Saquei a faca indo até ela que sacou um revólver.
- I´m sorry, baby, but all this time I support your other girls, but not beaches! - Um tiro, dois tiros...Quantos mais poderia ouvir antes de apagar?

***

03.02.2007

Viaduto Santa Efigênia. Seis amigos caminhando com o sol batendo em suas têmporas.
Todos amigos? Não, havia também um casal entre eles.
Mas o foco da atenção daquele homem não era o sol, o lugar ou qualquer outra pessoa em passos largos que cruzasse seu caminho com um pensamento agonizante sobre...São Paulo.
São Paulo. Não muito diferente de Whitechapel, alias, melhor que Whitechapel.
Embora as duas cidades possuíssem nomes santos, esta religiosidade só passava pelo nome, ou pelo culto aos bordéis, prostitutas e menininhas bem drogadas.
Talvez fosse meu destino mostrar a eles onde realmente viviam.
Sua roupinha bem comportada não escondia o olhar que tinha desde muito antes. Aquele olhar de que sabe o que quer e o que não quer, mas não faz distinção entre isto.
Conversava e ria passando por mim sem me notar, outro rosto apagado e difuso ante a multidão de rostos apagados e difusos da cidade.
Sorri com o canto dos lábios, o chapéu sombreava toda a superfície de meu rosto, as luvas em minhas mãos e o casaco até os pés, excêntrico, mas nada que eles notaram.
- Oh, doce Marie...– Sussurrei ao vento enquanto começava a andar no sentido ao qual ela viera.O sol se pôs cor de ouro aquela tarde. Ainda era uma menina, menina em forma de mulher, mas a infinidade de anos não me tornaram paciente, e sim um paciente da morte, carregador de destruição.Meu caso fora encerrado. Culparam ao príncipe, ao açougueiro, a todos que puderam, mas no fim, foi o barbeiro quem teve a honra em ser internado por mim. Que honra, Kosminski!Faltava pouco agora. Logo a festa mais sagrada para este povo aconteceria e teria minha deixa.


Seus sonhos. Podia estar em todos eles. Senti-los em minha veia como a droga que estes jovens consumiam. Abalavam minha mente e me davam maior sede. Abri meus olhos deixando ar passar por minha garganta. Olhar vidrado no pote mais próximo de minhas mãos. Abri-o novamente e retirei o coração de dentro. O odor não era mais o de uma dama sofrida, era cheiro de paz, da paz que lhe dera.
Apertei-o em minhas mãos e aproximei meu nariz nele sentindo o pulsar de seu coração a quilômetros de mim.
Olhar injetado, sorriso-demônio.
Passei a língua por meu lábio sucumbindo à tentação de me afastar.
Ainda era manhã, e o verbo ainda era amar.


Fui até onde ela estava. Podia vê-la da janela. Conversava, brigava, coisas normais, coisas enfurecedoras. Não era ela. Ela era mais.
Seu olhar cruzou o meu e por segundos me viu. Cílios grandes, olhos como os de outrora. Mas os outros estavam em meu bolso agora e eu os comeria quando tivesse aqueles, ainda vivos e refletindo uma alma atormentada pelo passado que não sabia. Mas tinha como saber, e não me referia a mim que não voltaria.
Ninguém me vira, louca.
Mas ela viu novamente e novamente tentou entender: “Quem, quem, quem?”.
Eu deturpava seus sonhos, a mesma faca que usara eu usaria nela. Não ódio, apenas amor. E ela sabia que não faria nada que ela quisesse, pois ela queria nada e eu queria tudo, e queria apenas ela.
Nas outras vezes a aterrorizara, tive de ir. Agora não conseguia mais deixar ou largar seu olhar desconfiado apreensivo. Resultado de muitos e muitos lugares, muitas e muitas mortes, mas nenhuma como a outra, apagada e destruída da mente por caridade daqueles que não puderam me destruir.
Já se passaram nove dias desde aquele viaduto. Mas ela não me vira acaricia-la durante o sono ou arranhar sua face e seu colo com prazer. Fora poupada do julgamento de um louco que a terá mais breve do que imagina encontrar.
A festa se aproximava. Carnaval, a época das grandes orgias, de sua última partida. Calei-me em cima da outra torre de onde podia vê-la sentada a cama, cabelos no rosto e olhar sério.
Sua magoa aparente era descrença e amargor.
Não movi um músculo até as luzes se apagarem e poder entrar. O vento batia em seu corpo que arrepiou de frio, olhos bem fechados, expressão séria e certeza de mau dia.
Ajoelhei-me ao lado da cama e fitei sua face inexpressiva, seu sonho barroco. Deslizei a costa de minha mão pela curvatura de seu corpo afastando o lençol que encobria minha visão.
O sangue corria em suas veias e fazia seu coração saltitar como a menina de chapéu vermelho que acabou comida pelo lobo mau.
Pousei meu indicador em seus lábios e arrastei-o vagarosamente até seus seios onde ele brincou* deslizando por suas voluptuosas curvas, mas passando dali e se arrastando até seu ventre. Olhei para seus olhos. Ela não acordaria.
Coloquei minhas duas mãos ali e desci-as fazendo com que passassem por suas coxas nuas e quentes.
Ela se moveu ficando no lugar ideal para mim. Seus lábios entreabriram0se sorvendo ar, mas logo voltaram a se fechar.
Coloquei dois de meus dedos por cima do pano úmido, enquanto a outra mão, acima, tocou sua maturidade-mulher e sentiu seu arrepio forte ao retirar a peça de roupa que a cobria.
Voltei meus olhos para ali onde novamente brinquei com os dedos antes de aproximar meus lábios que inicialmente tocaram, mas depois abriram espaço para minha língua que o rodeou antes de absorver e como uma criança faminta sorver.
O outro era massageado e seduzido por minha mão eloqüente, saudosa e antiga, que jamais havia sido esquecida.
Sua respiração quente tornou-se mais forte em minha nuca e larguei-os sorrindo.
Com os olhos postos nelas, desci meu rosto aproximando meus dentes do pano, mas não o rasguei.
Passei minha língua por sobre ele várias vezes, em um movimento vagaroso que a permitiu sentir, de fato, o que ocorria.
Passei um de meus dedos pelo elástico e brinquei de leve antes de...]- AHR! – Pus-me de pé, do outro lado da janela escondido da luz. Ouvi novamente o som proveniente de uma das cachorras que talvez tivesse me sentido por perto. Relanceei meu olhar para ela e aproximei-me, voltando suas peças de roupa, mas não o que lhe cobria.
- Oh, Marie... – Retirei a faca de um bolso e com olhar doentio, joguei em seu útero fazendo com se contorcesse dentro de seu corpo antes de sumir.

Cada minuto que passava, ficava mais e mais perto do momento de poder busca-la. Suas vibrações me pertenciam e suas agitações matutinas me custavam adormecer.
Sentia emoções fortes consideradas problemas, mas eram apenas emoções de quem não é daqui e nem deveria sujeitar-se ao espaço - tempo aqui- agora.
Sua mente captava sinais de algo, captava-me cada vez mais próximo, e assim estava quando quinta-feira finalmente chegou...


To be continued...

(Porque o brilho de certas estrelas jamais tem um fim...)