Tuesday, August 15, 2006

Conto - Vendida.

Acordei no mesmo instante em que o sol adentrou e a magnifica lua surgiu.
Levantei-me de minha pequena cripta. Ao longe podia ouvir o guarda saindo cantarolando após ter trancado o portão.
Deixei um leve sorriso transpassar meu rosto emoldurando a máscara de ódio e revolta que se assolara por mim desde...Desde aquela noite.

A menina estava tão chorosa que mal podia se imaginar como um ser humano pudesse ter tantas lágrimas. Seu carrasco, o pai, a empurrava com a mão segurando firmemente em seu braço enquanto terminava de negociar o preço pelo qual venderia a filha.
A mãe se casara com outro homem - após tantos anos de solidão - e estava tão cega de amor que não via as olhadas que este ser dava para sua filha moça.
Mas não ficaram só nas olhadas. Sua mãe tivera de sair, trabalhava ávidamente, talvez por ela mesma saber que nada ia bem, cada vez mais se entregava ao vício de trabalhar por todas as horas que podia.
E foi em uma dessas tardes que eu não pude gritar nem pedir por socorro...Que tive de me contentar em permanecer viva..Mas agora...Nada disso importava mais...

Levantei-me de meu caixão de um salto e abri a porta da cripta. O cemitério estava deserto como era esperado, poderia ter dito que o ar entrou por seus pulmões mas não entrou.
Ela olhou para um lado e depois para o outro antes de sair do cemitério, mas quando terminou de pular o portão parou à sua frente como se esperasse por algo.

Seu preço só não fora maior por conta da gravidez indesejada, por conta do aborto que teriam de fazer antes de poderem a vender por todas as noites.
O ódio que sentia daquele ser era superior a qualquer sentimento que já sentira em vida. Quando o pacote de dinheiro foi entregue ele saiu sem nada dizer a deixando lá.
"Talvez mamãe nem ligue..."
Sua cabeça baixa deixava os cabelos cairem por seu rosto e esconderem as lágrimas que inevitavelmente transpassavam-no, cortando ao seu coração como lâminas afiadas. Seu comprador na penunbra não se manifestou, apenas...A observava, como um caçador faz com a caça.
Antes que ela percebesse como, as mãos do sujeito já estavam em seu queixo a forçando olhar para cima e a surpresa que penetrou em sua mente só não foi maior que a dor que sentia em seu coração.
Reconhecera o homem no momento em que o olhou. O havia visto apenas uma vez...Uma única vez a quase dez anos atrás.

Elas viviam correndo de cidade em cidade mas nunca pudera pensar que fosse para fugir do pai. Quando chegara da casa da amiguinha lá estava ele, conversando com a mãe atormentada a um canto da sala.
Seu sorriso repleto de cinismo e amor assustou a menina, mais pelo medo da mãe do que pela própria figura do homem que sem nada dizer lhe entregou uma rosa e saiu.
Imediatamente a rosa fora partida pela mãe e ainda no mesmo dia se mudaram novamente. Depois disto ela nunca mais vira aquele homem...

Ele estendeu a mão ofertando-lhe a mesma rosa e as mãos tremulas de sua mercadoria a apanharam antes dela o olhar uma ultima vez com vida.

Os poucos carros que passavam pela rua mal notavam a figura da jovem parada no portão do cemitério como uma terrível alma pronta para atacar aos mais temerosos. Ela não movia sequer um músculo nem fitava outro lugar se não o outro lado da rua enquanto seus pensamentos voltavam no tempo trazendo estas lembranças a tona.

Em sua sobre vida o homem pode ofertar-lhe a chance de se vingar de quem tirou sua pureza e maltratou seus caminhos. Ela não teve a menor dúvida ante destrui-lo com a maior crueldade que sua mente, aidna deveras humana pôde.
Sua mãe, ela não relutou em internar no lugar mais cabível para ela. O manicômio, aquele lugar onde os fantasmas da perda e abandono da filha a atormentariam por todos os seus amaldiçoados dias cheios de narcóticos e remédios.
E agora ali estava ela, sem sentimentos humanos, sem nada que pudesse aplacar sua ira, apenas...Um companheiro.

Uma sombra começou a se mexer a hora que o homem ficou visível e atravessando a rua parou de frente para ela, sorrindo audaciosamente.
- Pensei que não viria.
- Estava apenas acertando o negócio desta noite. Pronta para acabar com mais um?

...The End...

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